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Luiz Carlos Mendonça de Barros, Presidente da Foton Caminhões e um dos economista e articulista mais respeitados do país

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Um dos mais respeitados economistas e articulistas do país fala como o Brasil entrou em recessão e indica os possíveis caminhos para os próximos anos.

Graduado pela USP em Engenharia de Produção e Doutor em economia pela Unicamp, o empresário. Luiz Carlos Mendonça de Barros é um dos mais respeitados economistas e articulistas do país. Presidente da Foton Caminhões, Mendonça de Barros já foi presidente do BNDES e diretor do Banco Central do Brasil, além de ter ocupado o cargo de Ministro das Comunicações em 1998.

Em entrevista para a Radar Magazine, Luiz Carlos explica como o Brasil entrou em recessão e indica os possíveis caminhos para os próximos anos.

Como o Sr. avalia o atual cenário econômico do Brasil?

É muito difícil. Mas hoje é possível entender com facilidade porque chegamos nesta condição. Foi um erro de política econômica da presidente Dilma. Ela tem duas causas, uma externa que foi o fim do ciclo de commodities criado pela incrível expansão da demanda chinesa entre 2004 e 2012. O segundo é interno. Durante este período do ciclo a sociedade mudou muito, com milhões de brasileiros sendo trazidos para empregos formais. Este movimento deu a eles um ganho de estabilidade econômica, permitiu entrar no mercado de crédito, aumentar o consumo e ai girou a roda positiva da economia. No período todo de crescimento colocou-se uma pressão muito grande em certos segmentos de mercado, fazendo com que a relação de ofertas de produtos e serviços se invertesse. A demanda ficou muito maior que a oferta e ai os preços começaram a subir.

Poderia dar um exemplo?

O exemplo mais crítico é o mercado de trabalho que onde a taxa de desemprego em 2012-2013 chegou a 4,5%. Com 4,5% por cento de desemprego, considerando que tem gente que não tem capacitação profissional, é considerado praticamente pleno emprego. Os sindicatos começaram a usar a sua força para aumentar salários e a economia começou a patinar pois não tinha mais oferta para crescer em segmentos importantes. A inflação começou a comer renda e o setor privado, principalmente os bancos, perceberam que estávamos vivendo um ciclo diferente e começaram a restringir crédito, colocando uma série de empecilhos para a continuidade de crescimento.

E como foi a atitude do governo neste momento?

Havíamos chegado ao pico daquele ciclo econômico e o governo viu que o crescimento econômico começou a desacelerar. Eles precisavam entender que isto era um sinal natural dos mercados, que era necessário uma política de desaceleração do crescimento para permitir que o investimento aumentasse a oferta e daqui dois ou três anos o crescimento pudesse ser retomado. Mas eles tinham o problema das eleições e resolveram usar os gastos do governo. O Banco Central abaixou a taxa de juros e começou a segurar os preços públicos para evitar que a inflação continuasse subindo. E isto foi mortal. O setor privado, que já estava desconfiado que estávamos entrando em um ciclo mais difícil, quando viu o governo ao invés de caminhar na direção certa, tentar artificialmente manter o crescimento, pulou fora. Ai a economia começou a cair.

O impeachment da presidente acalmaria os ânimos do mercado?

Caso o Temer assuma ele trará o Henrique Meirelles e o Meirelles tem toda a confiança do mercado. O humor muda imediatamente, porque como a crise está refletindo ainda o governo Dilma, o preço de todos os ativos do Brasil estão refletindo o inferno. A hora que você muda isso, você tem a primeira retomada da economia.

E caso o impeachment não aconteça, o que devemos esperar?

Ai a economia ficará como está. Já temos alguns sinais que, mesmo parcialmente, o tratamento que o ex-ministro Levy deu para a economia teve resultado. O mais importante deles é que a balança comercial já virou. O Brasil fechou 2015 com 17 bilhões de dólares de superávit, podendo chegar a 35/40 bilhões neste ano. Em 2014 fechou com déficit. O Brasil está exportando mais e com isso aumentando a produção industrial. Agora o custo disso é que a inflação deu uma disparada, porque todo preço que é relacionado com o internacional aumentou 50% em 2015.

Para este ano ainda devemos ter alta na inflação?

Tivemos dois grandes choques de preços em 2015. Os 50% do câmbio e também a correção dos preços públicos, de 18%, que também geraram uma inflação. Quando você leva um choque deste, leva dois anos para amortizar. A inflação será menor que em 2015, mas ainda será alta. Estes dois choques externos são necessários para que a economia volte a crescer lá na frente. É preciso reequilibrar os preços públicos e a taxa de cambio que hoje já está praticamente corrigida.

Os rebaixamentos no grau de investimento que o Brasil vem sofrendo podem atrapalhar ainda mais a economia?

Evidente que é ruim. Reduz o nosso crescimento potencial, ou seja, uma série de investidores que poderiam fazer investimentos aqui no Brasil não farão. Mas o Brasil viveu muito tempo com este selo de mau pagador e fomos em frente. É uma pena pois era um bem público que, para realmente voltar a existir, precisa de pelo menos dois anos de um governo com uma política econômica sem erros.

Além de acalmar os ânimos, a eleição de um presidente de outra legenda partidária (possivelmente Aécio Neves, do PSDB) pode fazer com que o Brasil retome a rota de crescimento?

Demorará no mínimo dois anos. Mas serão dois anos diferentes. porque volta o investimento, a confiança e o humor. O duro é ter a recessão que temos hoje e você olha para quem comanda o país e não tem nenhum sinal. Em 2017 já teremos as pesquisas e, se aparecer o Aécio, ninguém vai esperar ele tomar posse. Já começará a mudança do humor. Ano ruim, caso não tenha o impeachment, será 2016, pois ainda estaremos longe das eleições e olhando para a presidente Dilma todo dia. Não tem como não ficar negativo.

O empresariado reclama muito da forte carga tributária. Podemos esperar uma reforma nos próximos anos?

A reforma tributária só virá quando acontecer uma reforma do gasto do governo, porque o imposto arrecadado hoje é o mínimo necessário para pagar as contas do governo. Ele tem que gastar menos para então poder arrecadar menos e, ai sim, mexer nos impostos. Hoje a carga tributária não permite nem um pequeno superávit primário das contas do governo, como você vai reformar a carga tributária? Esquece.

Quais os gastos que precisam ser reduzidos?

Previdência, uma série de gastos do governo, privatizar as empresas públicas e etc. As regras para fazer isto todo mundo já sabe. O que precisa é ter um presidente da república que tenha cacife político para poder atacar esta parte. Mas eu acho que a sociedade mudou, e o próximo presidente terá finalmente condição de começar a atacar o gasto público. Mas não ela.

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