As feiras de negócios são muito mais do que espaços de exposição de produtos e serviços. Para empresas que buscam novos mercados, esses encontros representam oportunidades de conquistar compradores, estabelecer parcerias e ampliar sua presença comercial no Brasil e no exterior.
Essa função coloca as feiras em uma posição estratégica na economia. Além dos impactos sobre o turismo e a cadeia de serviços, elas também contribuem para a competitividade empresarial e para a internacionalização de negócios.
No Brasil, o próprio governo federal reconhece essa importância. A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) utiliza feiras internacionais, missões empresariais e rodadas de negócios como instrumentos de promoção comercial.
Os resultados dessas iniciativas mostram por que os eventos empresariais devem ser analisados também por sua capacidade de gerar oportunidades econômicas, e não apenas pelo movimento de visitantes que atraem.
Feiras de negócios aproximam empresas de compradores internacionais
Uma feira empresarial concentra fabricantes, distribuidores, fornecedores e compradores interessados em determinado mercado.
Essa aproximação permite apresentar produtos, comparar soluções, identificar tendências e iniciar negociações comerciais.
Para empresas que pretendem exportar, os encontros presenciais também oferecem oportunidades de compreender as exigências dos mercados internacionais, avaliar concorrentes e estabelecer contatos com potenciais parceiros.
Entretanto, os resultados nem sempre se concretizam durante os dias de exposição.
Uma negociação iniciada no estande pode evoluir para propostas, contratos de fornecimento ou acordos de distribuição nos meses seguintes.
Por isso, o valor comercial de uma feira não se limita à movimentação econômica registrada durante sua realização.
ApexBrasil utiliza feiras como instrumento de promoção comercial
A participação de empresas brasileiras em eventos internacionais faz parte das estratégias desenvolvidas pela ApexBrasil.
Por meio do programa ApexBrasil Mais Feiras, a agência oferece apoio à participação em exposições selecionadas, incluindo estrutura de exposição, preparação empresarial e suporte durante os eventos.
O objetivo é facilitar a aproximação com compradores internacionais, promover produtos brasileiros e contribuir para a geração de negócios.
Essa abordagem também está presente na Política Nacional de Cultura Exportadora, coordenada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
O relatório de implementação de 2025 da política apresenta exemplos concretos de ações comerciais realizadas em feiras e encontros empresariais.
Artesanato brasileiro encontra oportunidades em mercados internacionais
Entre as iniciativas apresentadas está a participação de empresas brasileiras de artesanato na feira New York Now Summer, realizada em agosto de 2025, nos Estados Unidos.
Segundo o relatório, a ação envolveu 13 empresas e registrou expectativa de US$ 131,9 mil em negócios.
Outra iniciativa foi a Jornada Exportadora do Artesanato em Lisboa, Portugal, que reuniu 20 participantes e registrou expectativa de US$ 429,7 mil em negociações comerciais.
Já o Exporta Mais Brasil Amazônia, realizado em Rio Branco, no Acre, envolveu 19 participantes e apresentou expectativa de US$ 1,15 milhão em negócios.
Esses valores representam estimativas comerciais informadas pelas iniciativas, não necessariamente vendas concluídas ou receitas efetivamente recebidas.
Ainda assim, demonstram que os eventos foram planejados e avaliados com foco em resultados comerciais.
Rodadas de negócios fortalecem a conexão com o mercado externo
Além das exposições, as rodadas de negócios representam outra modalidade de encontro empresarial voltada à aproximação entre oferta e demanda.
Em dezembro de 2025, o Exporta Mais Brasil Cooperativas reuniu, em Salvador, compradores de diferentes países e representantes de cooperativas brasileiras.
De acordo com o relatório do MDIC, cerca de 150 cooperativas participaram das rodadas com 30 compradores internacionais, provenientes de 21 países.
As reuniões geraram US$ 7,2 milhões em expectativas de negócios, equivalentes a aproximadamente R$ 38,9 milhões segundo o documento oficial.
A iniciativa demonstra como encontros presenciais podem integrar políticas de desenvolvimento empresarial e comércio exterior.
Nesse caso, o objetivo central não era promover um destino turístico, mas aproximar produtores brasileiros de potenciais clientes internacionais.
Promoção comercial também movimenta a cadeia produtiva de eventos
A realização dessas iniciativas depende de uma estrutura especializada.
Organizadoras, montadoras de estandes, empresas de audiovisual, cenografia, tecnologia, logística, comunicação e atendimento participam da entrega das feiras e dos encontros empresariais.
Enquanto expositores e compradores utilizam esses ambientes para desenvolver relações comerciais, os fornecedores da indústria de eventos mobilizam profissionais, equipamentos, serviços e infraestrutura.
São duas dimensões econômicas complementares.
A primeira está relacionada aos negócios que podem surgir entre as empresas participantes. A segunda envolve a atividade produtiva necessária para organizar e executar o evento.
Essa distinção é importante porque os contratos negociados por expositores não correspondem automaticamente à receita das organizadoras ou de seus fornecedores.
Por outro lado, ambas as dimensões contribuem para compreender a relevância dos eventos na economia.
Debate internacional reforça papel estratégico das feiras
No Reino Unido, a Events Industry Alliance (EIA) defende que eventos empresariais sejam tratados como instrumentos da política industrial e comercial.
Em outubro de 2026, a entidade voltou a pedir uma estratégia nacional específica para o segmento, argumentando que sua importância ultrapassa os resultados tradicionalmente associados ao turismo.
Entre os exemplos apresentados, a EIA citou o Farnborough International Airshow 2026, associado ao anúncio de £62,9 bilhões em negócios durante quatro dias comerciais.
A entidade também destacou a MACH, feira voltada à indústria de manufatura, à qual atribuiu aproximadamente £200 milhões em negócios gerados ao longo de cinco dias.
Os valores possuem metodologias e naturezas comerciais distintas. Portanto, não devem ser interpretados automaticamente como receitas efetivamente realizadas ou impactos diretos da organização dos eventos.
Ainda assim, ilustram a dimensão das oportunidades comerciais associadas a grandes encontros empresariais.
O valor das feiras não termina quando os estandes são desmontados
Os impactos turísticos e operacionais das feiras continuam relevantes. Eles movimentam destinos, geram empregos e sustentam uma extensa cadeia de serviços.
Entretanto, avaliar esses eventos apenas pelo número de visitantes ou pela ocupação hoteleira deixa de considerar outra dimensão de sua importância.
Indicadores como compradores qualificados, reuniões comerciais, propostas apresentadas, novos mercados alcançados e contratos efetivados ajudam a compreender sua contribuição para o desenvolvimento empresarial.
O desafio está em medir esses resultados com critérios consistentes, distinguindo expectativas comerciais de negócios efetivamente concluídos.
A experiência da ApexBrasil demonstra que feiras e rodadas de negócios já integram a estratégia brasileira de promoção das exportações.
O reconhecimento dessa função econômica pode contribuir para políticas públicas que considerem os eventos não apenas como atividades geradoras de turismo, mas também como instrumentos de competitividade, comércio exterior e desenvolvimento produtivo.
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Esta é a segunda reportagem da série especial A Nova Economia dos Eventos, do Portal Radar. No próximo capítulo, a discussão avança para os indicadores econômicos e a necessidade de medir os resultados dos eventos para além do público e da movimentação turística.





