Qual é o verdadeiro valor econômico de uma feira de negócios? A resposta costuma começar pelo número de visitantes, pelas despesas dos participantes, pela ocupação hoteleira e pelos empregos gerados durante sua realização.
Esses indicadores são importantes, mas não revelam toda a contribuição dos eventos de negócios para a economia.
Uma exposição industrial pode estimular contratos de fornecimento, abrir oportunidades de exportação ou aproximar empresas de novos parceiros comerciais. Um congresso técnico pode impulsionar pesquisas, investimentos e transferência de conhecimento.
Esses resultados ultrapassam o período de realização do evento e nem sempre aparecem nas estatísticas tradicionais.
A discussão ganhou novos elementos com o estudo 2026 Global Economic Significance of Business Events, divulgado pelo Events Industry Council (EIC), em parceria com a Oxford Economics.
Eventos de negócios contribuíram com US$ 1,8 trilhão ao PIB mundial
Segundo a pesquisa, os eventos de negócios reuniram aproximadamente 1,65 bilhão de participantes em mais de 180 países durante 2025.
A atividade gerou US$ 1,3 trilhão em gastos diretos. Considerando também os efeitos indiretos e induzidos, o volume total de vendas econômicas sustentadas pelo setor chegou a US$ 3,1 trilhões.
A contribuição ao Produto Interno Bruto (PIB) mundial foi estimada em US$ 1,8 trilhão, enquanto o número de empregos sustentados alcançou 24,2 milhões.
O levantamento também identificou que cada dólar gasto diretamente com eventos de negócios gerou outros US$ 1,37 em despesas indiretas e induzidas na economia.
Os números abrangem uma extensa cadeia produtiva, incluindo organizadores, centros de convenções, montadoras, empresas de audiovisual, tecnologia, logística, hospedagem, transportes e serviços profissionais.
Feiras comerciais representam uma economia própria
O estudo também apresentou resultados específicos para as feiras e exposições comerciais.
Em 2025, essas atividades reuniram aproximadamente 318 milhões de participantes e geraram US$ 179 bilhões em gastos diretos.
Com os impactos indiretos e induzidos, as feiras sustentaram US$ 444 bilhões em vendas econômicas totais, contribuíram com US$ 256 bilhões para o PIB mundial e apoiaram 4,3 milhões de empregos.
Esses indicadores evidenciam a importância econômica da organização e realização das exposições.
Entretanto, não representam necessariamente o valor das transações comerciais realizadas entre expositores e compradores.
Essa distinção é essencial para compreender o alcance dos eventos empresariais.
Impacto econômico não é o mesmo que negócios gerados
Quando uma feira reúne fabricantes, distribuidores e compradores, existem diferentes resultados econômicos que precisam ser analisados separadamente.
O primeiro corresponde à movimentação financeira necessária para realizar o evento. Inclui montagem, infraestrutura, serviços contratados e despesas dos participantes.
O segundo está relacionado aos efeitos dessa atividade sobre fornecedores, trabalhadores e outros setores da economia.
Já o terceiro envolve os resultados comerciais proporcionados pelo encontro, como novos clientes, contratos, exportações, investimentos e parcerias empresariais.
Um contrato negociado durante uma feira pode movimentar valores expressivos, mas não corresponde automaticamente à receita da organizadora ou de seus fornecedores.
Da mesma forma, oportunidades comerciais anunciadas durante o evento não devem ser contabilizadas como vendas efetivamente realizadas sem a devida confirmação.
Por isso, medir a economia dos eventos exige distinguir gastos diretos, impactos econômicos totais e resultados comerciais.
Relações comerciais são parte importante do valor dos eventos
Além dos indicadores financeiros, a pesquisa do EIC analisou benefícios associados à interação presencial.
Entre os participantes consultados, 70% apontaram a construção de relacionamentos como o resultado mais difícil de substituir por outros meios de interação.
As organizações entrevistadas também estimaram que perderiam 28% de suas receitas sem a participação ou exposição em eventos presenciais.
Outro resultado apresentado foi a estimativa de US$ 11 em receita incremental para cada dólar investido em participação ou exposição.
Esses indicadores refletem percepções e estimativas declaradas na pesquisa. Portanto, não representam uma taxa de retorno garantida para todos os eventos ou empresas.
Ainda assim, revelam a importância atribuída pelos participantes às oportunidades de negócios e aos relacionamentos desenvolvidos nesses ambientes.
Como medir melhor o retorno das feiras e congressos
A avaliação econômica dos eventos empresariais pode combinar indicadores de realização com dados comerciais acompanhados ao longo do tempo.
Além de público, expositores e movimentação turística, podem ser considerados o número de compradores qualificados, as reuniões realizadas, as oportunidades comerciais identificadas e os contratos efetivamente concluídos.
Também é possível acompanhar a abertura de mercados, a formação de parcerias tecnológicas e a continuidade das relações comerciais estabelecidas durante o encontro.
Uma feira pode gerar propostas de fornecimento que serão negociadas nos meses seguintes. Já um congresso pode dar início a projetos de pesquisa ou cooperação institucional cujos resultados aparecerão posteriormente.
O acompanhamento após o encerramento do evento permite identificar esses desdobramentos, evitando que expectativas sejam confundidas com resultados concretos.
Medir melhor para reconhecer o papel econômico dos eventos
A discussão sobre indicadores está diretamente relacionada à forma como o setor é reconhecido nas políticas públicas.
Quando a avaliação de um evento empresarial se concentra principalmente na atração de visitantes e na ocupação hoteleira, sua contribuição tende a ser interpretada sob a perspectiva turística.
Entretanto, feiras e congressos também podem atuar como instrumentos de promoção comercial, desenvolvimento industrial e inovação.
Isso não reduz a importância do turismo nem da cadeia de fornecedores responsáveis pela realização dos eventos. Ao contrário, permite identificar com mais precisão os diferentes resultados que cada atividade produz.
O estudo do Events Industry Council oferece uma dimensão consistente da relevância econômica global do setor. Ao destacar também os efeitos comerciais e estratégicos dos encontros presenciais, amplia o debate sobre como avaliar sua contribuição.
O valor de um evento não termina quando os visitantes vão embora ou os estandes são desmontados. Ele também pode continuar nos contratos, nas parcerias e nas oportunidades de negócios que surgem a partir daquele encontro.
Fontes:
Events Industry Council — estudo completo divulgado em agosto de 2026
Economic Significance Study — base metodológica
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Esta é a terceira reportagem da série especial A Nova Economia dos Eventos, do Portal Radar. No próximo capítulo, o debate avança para o Brasil e a possibilidade de uma política nacional que articule eventos empresariais, indústria, comércio exterior e turismo.


