POR MARCUS QUINTANILHA FILHO
A manifestação recente da ABRAFESTA junto à Receita Federal, com propostas para esclarecer o enquadramento tributário de organizadores, produtores e fornecedores especializados, expõe um problema real: a insegurança jurídica que acompanha uma cadeia produtiva complexa, formada por empresas de diferentes portes e atividades.
A proposta mira na carga tributária, mas a discussão precisa ir além. Existe uma questão estrutural: quem assume os riscos de uma indústria na qual o próprio Estado, além de regulador e incentivador, passa a ocupar o espaço de realizador e contratante?
É uma discussão legítima e necessária. Mas não suficiente.
O produtor de eventos enfrenta desafios que vão muito além dos impostos. Precisa antecipar capital, negociar contratos, contratar artistas, fornecedores, estruturas, equipes técnicas, segurança, logística e publicidade. Precisa vender ingressos, conquistar patrocinadores, administrar imprevistos e conviver com a possibilidade de terminar um evento no prejuízo.
O risco é empresarial. E o sucesso depende de variáveis que nem sempre estão sob seu controle.
É justamente aí que começa uma discussão que recebe pouca atenção: enquanto a iniciativa privada assume riscos e busca modelos sustentáveis de negócio, o poder público amplia sua presença na realização e no financiamento de grandes eventos.
O Estado pode fomentar a cultura. Mas precisa disputar o mercado com quem vive dele?
É importante reconhecer a dimensão econômica desse mercado.
O III Dimensionamento do Setor de Eventos no Brasil, estudo realizado pelo Sebrae Nacional, com execução técnica do Observatório da Indústria do Sistema FIEC e participação de entidades representativas, estimou que o setor movimentou R$ 813,5 bilhões em 2024, o equivalente a 4,6% do PIB brasileiro.
O levantamento identificou aproximadamente 300 mil empresas, 10,1 milhões de eventos e 12,7 milhões de empregos associados à atividade.
Não estamos falando apenas de entretenimento, mas de uma indústria que movimenta turismo, hotelaria, alimentação, transporte, publicidade, comunicação, montagem, tecnologia, segurança e milhares de pequenos e médios negócios.
Outro indicador relevante aparece no Radar Econômico da ABRAPE. Em janeiro de 2026, o núcleo de atividades do setor registrou 202.128 empregos formais, crescimento de 81,4% em relação a 2019.
Essa expansão foi construída por empresários, produtores e profissionais especializados que aprenderam a transformar eventos em negócios, desenvolver experiências, atrair investimentos e movimentar economias locais.
O Carnaval brasileiro é um exemplo dessa transformação. O São João nordestino é outro. O Réveillon das grandes capitais também.
Durante décadas, a iniciativa privada profissionalizou esses mercados, criou formatos, desenvolveu camarotes, circuitos, festivais, experiências de marca, modelos de patrocínio e operações de grande complexidade.
O setor evoluiu com empreendedorismo, investimento, concorrência e capacidade de inovação.
Tomemos como exemplo a Bahia.
O São João de 2025 registrou, segundo levantamento baseado no Painel de Transparência dos Festejos Juninos do Ministério Público da Bahia, aproximadamente R$ 614 milhões em contratações artísticas realizadas por municípios, Estado e União. Desse total, cerca de R$ 494 milhões tiveram origem municipal, R$ 83,5 milhões estadual e R$ 16,1 milhões federal.
Em 2026, o Governo da Bahia divulgou que o São João recebeu aproximadamente 2 milhões de turistas e gerou receita estimada em R$ 2,5 bilhões para a economia baiana.
Os números demonstram a relevância econômica e turística da festa, mas também revelam a dimensão da participação do poder público no financiamento de uma das maiores temporadas de eventos do país.
No Réveillon de Salvador, outro exemplo merece atenção. Para o Festival Virada Salvador 2026, a Prefeitura destinou aproximadamente R$ 13,09 milhões exclusivamente aos cachês artísticos, segundo valores publicados no Diário Oficial e compilados pela imprensa.
Não se questiona o direito de uma prefeitura promover uma festa gratuita. A questão é compreender os efeitos econômicos de um modelo em que o poder público mobiliza recursos expressivos para contratar atrações e produzir eventos que também fazem parte do mercado de atuação de empresas privadas.
Quando o Estado contrata diretamente, deixa de ser apenas um agente de fomento. Passa a escolher atrações, negociar cachês, definir formatos e organizar operações.
Mas existe uma diferença fundamental: o produtor privado precisa fechar a conta. O Estado não está submetido à mesma exigência de rentabilidade comercial.
*Marcus Quintanilha Filho é economista e empresário





