POR MILENA PALUMBO
Recorde de venda de livros e de público, a Bienal do Livro Rio 2025 superou todas as suas marcas históricas e se consolidou como uma importante plataforma nacional de mobilização e estímulo à leitura, cultura e educação.
A relevância e o impacto social do festival foram determinantes para a escolha do Rio de Janeiro como Capital Mundial do Livro pela Unesco, a primeira cidade de Língua Portuguesa a conquistar a honraria concedida a cidades comprometidas com o incentivo à leitura.
Este fato evidencia o potencial que o setor de eventos tem para contribuir mais ativamente com as transformações que a nossa sociedade tanto precisa, além de movimentar a economia e construir conexões entre públicos, marcas e propósitos.
Em um país onde o analfabetismo funcional atinge 29% da população entre 15 e 64 anos e 53% da população afirma não ler um único livro por ano, impressiona demais quando um evento reúne 740 mil pessoas de todas as idades em torno da literatura e comercializa 6,8 milhões de livros em apenas 11 dias, gerando um impacto de R$ 1,18 bilhão para a economia do estado do Rio, de acordo com pesquisa do Ibmec. Que fenômeno é esse?
Podemos creditar ao formato inédito de “book park”, que criou um imenso parque literário, onde livros, histórias e arenas de debates se encontravam com ativações e experiências imersivas.
Ou explicar o sucesso com pesquisas, inteligência de dados e uma série de estratégias de negócios e marketing. Mas, para mim, o grande segredo está na tríade: clareza de propósito, escuta ativa e ousadia.
Tanto do time do festival quanto de todos que embarcam a cada dois anos nas “loucuras” propostas por ele, de editores e autores a patrocinadores, parceiros públicos e privados e, claro, o público.
A Bienal também deixou claro que o digital e o analógico não são antagônicos ou rivais, que há espaço para as telas e as folhas de papel e que, quando o objetivo é fomentar a leitura, todos os recursos são bem-vindos.
Mas que, em tempos de sobrecarga digital, os encontros físicos se tornaram ainda mais necessários. O presencial carrega ainda mais valor ao entregar experiência, pertencimento e impacto real.
Nessa Bienal, até os nativos digitais celebraram a força do presencial, do encontro: “Aqui a gente percebe que as pessoas existem. Não são robôs. Não são miragens. É muito gostoso poder abraçar os leitores”, constatou Luca Guadagnini, um dos booktokers – criadores de conteúdo sobre literatura no Tiktok.
Eles já respondem por 22% da origem do interesse por literatura, atrás de familiares, professores e amigos, segundo a pesquisa Retratos da Leitura.
A Bienal – que nasceu em 1983 como uma feira do livro no Copacabana Palace, voltada para uma elite majoritariamente branca e masculina – é hoje um fenômeno diverso, democrático e absolutamente plural.
A mudança não aconteceu da noite para o dia, nem foi fácil. O evento – que chegou a enfrentar uma tentativa de censura em 2019 – foi se transformando junto com a sociedade até se tornar uma caixa de ressonância do que acontece no país e no mundo. Mas nessa última edição, a Bienal transcendeu. Foi muito além.
Se tornou uma espécie de universo paralelo, de projeto piloto do que gostaríamos que o Brasil fosse. Um país apaixonado por livros, onde escritores são verdadeiros popstars; que valoriza a educação e a cultura; que não tolera violência e discrimincação; que é acessível.
Onde crianças, adultos e idosos se divertem juntos; onde pobres e ricos aprendem lado a lado. Onde um pai vê a filha de 10 anos, com paralisia cerebral, rir pela primeira vez ao entrar no “mundo encantado” da Biblioteca Fantástica, pavilhão dedicado à literatura infantil.
Utopia? Pode ser. Mas por 11 dias vivemos essa realidade alternativa e saímos de lá com a certeza de que é possível, ao menos, caminhar nessa direção.
E de que os eventos podem ser molas propulsoras para nos catapultar para experiências intensas, imersivas, reais e transformadoras.
*Milena Palumbo é CEO da multinacional francesa GL events no Brasil e América Latina, responsável pela Bienal do Livro Rio.













