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Brasil projeta bilhões, mas ainda ignora quem mais precisa de saneamento

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POR ROLF PICKERT

 O Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em junho, é um momento oportuno para refletir sobre como o saneamento básico segue sendo um dos maiores desafios de infraestrutura e justiça social do Brasil.

Os 794 desastres associados a riscos hidrológicos registrados em 2024, consequência direta da ausência de planejamento urbano e investimentos estruturais em drenagem e resiliência climática, mostram isso.

Diante de um cenário no qual 90 milhões de brasileiros (44,5%) não têm acesso à coleta de esgoto, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), é iminente o crescimento de surtos de doenças que poderiam ser evitadas: foram 191 mil internações por enfermidades de veiculação hídrica em 2023.

A ausência de políticas públicas consistentes salta aos olhos. Em 2020, o Novo Marco Legal do Saneamento Básico trouxe um importante avanço para essa questão ao colocar como meta a universalização do saneamento até 2033.

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Isso significa que 99% da população deve ter acesso a água potável e 90% à coleta e tratamento de esgoto. 

O investimento no setor deve ser robusto: R$ 387 bilhões até 2040, segundo levantamento feito pela feira IFAT Brasil com a Pezco Economics e a Resolux Company.

O ambiente é mais atrativo para o setor privado e demonstra evolução em relação a décadas passadas. Ainda assim, está abaixo do necessário para cumprir a meta de universalização.

Nos próximos três anos, o Brasil deve investir cerca de R$ 25 bilhões por ano em saneamento, por meio de PPPs, concessões, privatizações e planos de expansão.

O volume é significativo, mas exige continuidade, coordenação entre os entes e foco nas regiões historicamente negligenciadas.

O cenário se agrava ainda mais quando falamos de resíduos sólidos. Com uma demanda de investimentos estimada em R$ 101 bilhões até 2040, apenas R$ 3,2 bilhões estão inseridos atualmente.

Embora a cobertura da coleta de resíduos sólidos urbanos seja de 90,4%, só 22% têm destinação adequada e menos de 3% dos materiais recicláveis são recuperados. Continuamos aterrando oportunidades — e ignorando os efeitos ambientais e sociais desse modelo ultrapassado.

A situação da drenagem urbana tampouco inspira otimismo: 26% dos municípios possuem mapeamento de áreas suscetíveis a inundações — o básico para planejar intervenções.

Os investimentos municipais entre 2017 e 2022 somaram R$ 29 bilhões, quando o Plano Nacional de Saneamento Básico estima a necessidade de R$ 250 bilhões até 2033.

As graves desigualdades regionais também são alarmantes. O Sudeste e o Nordeste concentram 45% dos investimentos previstos, enquanto o Norte do país, com mais de 17 milhões de habitantes, responde por apenas 2% dos projetos mapeados.

A lógica do mercado não pode ser a única força motriz. Políticas públicas precisam atuar onde o retorno financeiro não é imediato, mas o impacto social é urgente.

Saneamento é, ao mesmo tempo, política pública, responsabilidade coletiva, saúde, meio ambiente, segurança hídrica e combate às desigualdades.

Temos um ponto de partida, muito mais do que tivemos anteriormente, mas ainda necessitamos de vontade política, compromisso de longo prazo e, principalmente, coragem de olhar para o que falta e para quem mais precisa.

*Rolf Pickert é CEO da Messe Muenchen do Brasil. Com 25 anos de experiência em estratégia e cadeias produtivas, liderou a expansão do evento M&T Expo e o lançamento da feira IFAT Brasil, com forte atuação nos setores de construção, mineração e tecnologias ambientais.

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