Início Eventos Sociais, Esportivos e Corporativos Não choveu no Lolla. Então vamos reclamar do quê?

Não choveu no Lolla. Então vamos reclamar do quê?

POR DAVID CONTRERAS

Não choveu no Lollapalooza Brasil 2026. Não teve vídeo da galera escorregando, ninguém atolado na lama, nenhuma cena caótica viralizando. Esse ano não teve. Minha filha mesmo foi de tênis branco e voltou com ele limpo pra casa. LIMPO. E isso, por si só, já muda completamente a conversa.

Sem a chuva como protagonista, sobram leques e sobra o sol. E, curiosamente, ele é até pior para quem quer encontrar um culpado. O sol não vira meme, não rende crise, não gera comoção coletiva. Ele só deixa tudo mais visível. Inclusive aquilo que, em outros anos, passava despercebido.

Quando o clima deixa de ser pauta, o público começa a falar do que realmente importa: a experiência. E aí começam a aparecer outros vídeos, não mais de gente caindo, mas de gente reclamando.

Filas longas, ativações que não entregam o que prometem, brindes que não compensam o tempo investido. Os bastidores das marcas e dos influenciadores começam a circular com uma pergunta simples e direta: esperei tudo isso para quê?

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Essa é, talvez, a pergunta mais importante para qualquer marca presente em um festival como o Lollapalooza. Até onde vale uma fila de duas horas? A resposta não é tão óbvia quanto parece. Vale, sim. Mas só se a experiência justificar. O problema nunca foi o tempo de espera, e sim a quebra de expectativa.

Existe uma diferença grande entre esperar por algo que você entende e deseja e esperar sem saber exatamente o que vem depois. Quando não há clareza sobre o que a experiência entrega, quanto tempo vai levar ou qual é o benefício real, o que se perde não é só a paciência.

É a confiança. E confiança, em um ambiente de marca, é um dos ativos mais difíceis de construir e mais fáceis de destruir.

A experiência começa na fila

Alguns exemplos deixam claro que não se trata de falta de repertório, mas de execução. Outros festivais já usam  aplicativos com agendamento de experiências, organizando o fluxo e respeitando o tempo do público. Em eventos de Fórmula 1, ativações usaram QR codes para acesso ao agendamento e indicar quantas pessoas estavam à frente na fila, reduzindo a ansiedade com informação simples e direta.

A Disney (sim, sempre ela) talvez seja o maior case nesse sentido, ao transformar a espera em parte da própria experiência, criando interações, narrativas e estímulos ao longo do caminho.

No próprio Lolla deste ano, teve marca que mostrou um caminho interessante ao separar claramente o fluxo de público geral e convidados e influenciadores, evitando atrito e organizando melhor a jornada.

São soluções que não dependem de grandes investimentos criativos, mas de uma leitura mais cuidadosa do comportamento das pessoas.

O grande desafio hoje está em equilibrar duas forças que caminham em direções opostas. De um lado, a busca por personalização, experiências únicas, memoráveis e compartilháveis.

Do outro, a necessidade de velocidade, fluidez e baixo atrito. Quando a experiência é boa, mas trava o fluxo, gera frustração. Quando é rápida, mas genérica, perde relevância. O público já não aceita escolher entre uma coisa e outra.

Talvez o que esteja faltando não sejam ideias grandiosas nem espaços luminosos, mas atenção aos detalhes mais básicos da jornada. Pensar na fila como parte da experiência, e não como um efeito colateral dela.

Criar mecanismos de transparência, entretenimento e organização que respeitem o tempo de quem está ali. No limite, até um elemento simples de mediação e orientação já faria diferença. Alguém que organize, informe, dê ritmo e transforme o tempo de espera em algo minimamente positivo.

Às vezes, só precisamos aprender mais com o colaborador da CPTM que arrancou muitas risadas da multidão e tentou deixar tudo mais leve durante as filas para acessar os trens.  

E não adianta reclamar do line-up. Já faz tempo que a minha geração 40+ olha com desdém para a lista de shows do Lolla. Faz tempo que tem fila nos estandes. Faz tempo que é difícil chegar e sair do Lolla.

E ele segue cada vez mais cheio. Para um festival que segue engajando e atraindo uma legião de fãs da geração Z, essas experiências de marca vão ser cada vez mais relevantes.

Se no ano que vem fizer sol de novo, a pergunta que fica é: a ativação da sua marca está preparada para ser o assunto?

Porque, sem a chuva para desviar o foco, o que sobra é a entrega. É a experiência nua e crua, sendo testada em tempo real por um público cada vez mais exigente e impaciente.

O Lolla 2026 acabou agora e a fila para edição do ano que vem já começou, literalmente. Os ingressos já estão à venda.

Quem aí tem a previsão de como vai estar o clima em março do ano que vem? Garanto que já tem muitos fãs a postos e prontos para mais um ano de espera.

*David Contreras é Head de Estratégia na Blood, agência referência em non-stop experience

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