POR MARCUS QUINTANILHA FILHO
O sociólogo francês Michel Maffesoli cunhou o termo “Neotribalismo” para explicar como as sociedades modernas buscam momentos de efervescência coletiva para compensar o isolamento do dia a dia digital.
Estudos publicados no Journal of Behavioral Addictions e relatórios de tendências da GWI (Global Web Index) apontam que o jovem é movido pelo medo de ficar de fora de grandes acontecimentos coletivos.
Essa tendência é reforçada em pesquisas lideradas por psicólogos como Thomas Gilovich (Universidade de Cornell), que demonstram empiricamente que investir em experiências traz muito mais felicidade e senso de identidade do que bens materiais ou consumo repetitivo.
Como essa geração passa o dia inteiro hiperconectada e conversando online, a noite deixou de ser o único rito de sobrevivência social, respondendo a questões como a falência de bares e músicas de sexta à noite, como havia anteriormente.
Quando eles saem, buscam conexão real. Bares barulhentos demais, com música ao vivo que impede o diálogo, muitas vezes perdem espaço para formatos mais intimistas.
Pesquisas da Questex e Datassential indicam que o jovem prefere gastar mais dinheiro em uma experiência única, um drink instagramável de alta qualidade ou uma comida excelente, do que gastar o mesmo valor em vários combos de cerveja ou destilados baratos em uma pista lotada.
O foco saiu da “quantidade” e foi para a “qualidade”. Essa percepção já existia, mas se solidificou com as pesquisas de campo e são alicerces importantes para entendermos o mercado dinâmico da cultura musical, na atualidade.
Zygmunt Bauman, um dos sociólogos mais lidos e influentes das últimas décadas, encontraria nesse fenômeno a tradução perfeita de suas teorias.
Se estivesse vivo, ele olharia para essa mudança de comportamento dos jovens e diria: “Eu avisei. Isso é a Modernidade Líquida em sua fase mais pura.” Em sua obra Modernidade Líquida e Comunidades, Bauman conceitua o que ele chama de Comunidades Cabide (cloakroom communities).
São grupos temporários que se formam instantaneamente em torno de um evento e se dissolvem com a mesma velocidade assim que o evento acaba — como as pessoas que deixam seus casacos no vestiário de um teatro e depois os pegam de volta, sem criar laços reais entre si. Outro fato bastante claro aos nossos olhos.
Mas o que esse neotribalismo nos diz?
Ele é, inclusive, um contraponto à modernidade líquida e, por isso, é interessante entender sua essência: o ser humano tem um vazio social que o mundo digital e o individualismo moderno não conseguem preencher.
O jovem atual fica o ano inteiro evitando eventos ritualísticos sem muito sentido, mas entrando em ebulição para festividades pontuais como réveillon e carnaval, por exemplo.
A Geração Z é a primeira a crescer inteiramente mediada por telas. Eles têm milhares de conexões em redes sociais, mas pouca intimidade física.
O neotribalismo nos diz que a empatia e a conexão humana exigem o corpo. O ambiente digital satura a mente, mas isola o físico. O Carnaval de rua ou o pátio de um festejo junino oferecem o oposto: o calor humano, o empurrão da multidão, o suor, o som que bate no peito.
É a necessidade de “sentir-se vivo” através do contato com o outro, uma resposta biológica e psicológica à solidão das telas. Algo que Bauman não predisse em sua obra!
Essa é a ambivalência moderna: o mesmo indivíduo que se nega a fazer amizades reais duradouras e sair sempre para interagir é o mesmo que necessita de doses pontuais em seu calendário de eventos reais, grandes e expressivos.
Bem-vindos à nova dinâmica do consumo da vida e da cultura.
*Marcus Quintanilha Filho é empresário e economista baiano.
