POR MARCUS QUINTANILHA FILHO*
O Carnaval de Salvador não é apenas uma das maiores manifestações culturais do país. Trata-se também de um evento de forte impacto econômico, social e urbano, construído ao longo de décadas como um verdadeiro motor de geração de emprego e renda.
A cada edição, a festa movimenta setores como turismo, hotelaria, comércio, serviços, transporte e economia informal, garantindo sustento a milhares de famílias e fortalecendo a arrecadação municipal e estadual.
Ao longo de sua história, Salvador consolidou um modelo de Carnaval que extrapola os grandes circuitos tradicionais e alcança os bairros da cidade.
Os carnavais comunitários, realizados em diversas regiões, cumprem papel relevante não apenas na preservação cultural, mas também na descentralização econômica da festa, levando renda, lazer e identidade cultural para áreas historicamente menos assistidas pelo poder público.
Em 2026, entretanto, o debate em torno da segurança do Carnaval tem sido marcado por ruídos políticos que pouco contribuem para soluções efetivas.
É importante lembrar que, do ponto de vista legal e constitucional, a segurança pública é atribuição do Governo do Estado.
À Prefeitura cabe a responsabilidade pela organização urbana do evento, pela infraestrutura, ordenamento dos espaços, iluminação, limpeza, saúde, fiscalização e ações preventivas — tarefas que foram realizadas de forma antecipada e planejada.
Atribuir à gestão municipal responsabilidades que extrapolam suas competências institucionais não fortalece a segurança do evento, nem contribui para o interesse público.
Pelo contrário, fragiliza a necessária cooperação entre os entes federativos, especialmente em um evento da magnitude do Carnaval de Salvador, que exige integração, diálogo e planejamento conjunto.
Esse cenário torna-se ainda mais sensível quando atinge diretamente os carnavais dos bairros. O caso do Nordeste de Amaralina é emblemático.
Um dos carnavais mais tradicionais e simbólicos da cidade enfrenta riscos de não ocorrer, o que gera apreensão entre moradores, trabalhadores informais, comerciantes locais e agentes culturais que dependem da festa e de patrocinadores, como fonte de renda e afirmação cultural.
Os carnavais de bairro não são eventos secundários. Eles contribuem para a redução da superlotação nos grandes circuitos, fortalecem a economia local, ampliam o acesso à cultura e promovem inclusão social.
Enfraquecê-los por impasses políticos ou disputas institucionais significa penalizar diretamente comunidades inteiras que veem na festa um espaço legítimo de expressão e sobrevivência econômica.
O Carnaval de Salvador sempre se destacou por sua capacidade de reunir diferentes esferas do poder público em torno de um objetivo comum.
Em 2026, mais do que nunca, é fundamental que o debate sobre segurança seja conduzido com responsabilidade técnica, respeito às competências legais e compromisso com o interesse coletivo, evitando que a maior festa popular do país seja instrumentalizada por disputas políticas que pouco dialogam com a realidade de quem vive e trabalha na cidade.
*Marcus Quintanilha Filho é empresário e economista baiano.
