POR DAIANA MOURA
Há alguns anos, setembro foi escolhido como o mês dedicado campanha à prevenção do suicídio e cuidado da saúde mental. A campanha Setembro Amarelo é uma data fixa na agenda corporativa de muitas organizações.
Mesmo com esse engajamento do mundo corporativo, uma dúvida persiste: será que as ações promovidas realmente fazem a diferença na vida dos colaboradores?
Ou estamos somente assistindo a mais um tal de “brand wash” — aquela preocupação de somente aparecer nas publicações das redes sociais, nos brindes, sem mudar de fato a estrutura organizacional para um ambiente de trabalho mais saudável e o preocupado com o bem-estar de quem está lá dentro?
O ‘Marketing Amarelo’ e a falsa ideia de que a dor é só sua
Não dá para negar que a campanha é importante. Todavia, o que mais preocupa é ver como o tema do adoecimento psíquico é, muitas vezes, ‘sequestrado’ e simplificado.
O foco das causas reais é velado: as metas que ninguém alcança, o trabalho que nunca acaba e uma maneira de gerenciar a equipe que aposta no medo. Tudo isso só empurra um profissional para o esgotamento.
O problema reside em camadas mais profundas: a questão não é só do indivíduo, mas de toda a estrutura.
Enquanto em setembro os colaboradores recebem brindes, são convidados a assistir palestras sobre resiliência, participam de sessões de meditação em grupo, ginástica laboral e até aquele gostoso café/almoço com ‘coach-gurus’, muitas empresas fecham os olhos para o que realmente está levando os profissionais ao adoecimento.
Não dá para esperar que uma pessoa sozinha consiga se proteger de uma cultura organizacional que vive de pressão constante e não respeita os limites.
Sofrimento mental é coisa séria e não pode ser tratado com superficialidade; as organizações precisam mergulho de verdade nas causas e tomar atitudes concretas.
Saúde mental no mercado de eventos: prazos, sobrecarga e a conta que chega
Para quem está no mercado de eventos, essa discussão é ainda mais urgente. É um setor que vive de sobrecarga de tarefas, prazos super apertados, muita demanda e uma falta constante de mão de obra qualificada.
Profissionais de eventos vivem num ritmo alucinante, onde a resiliência é testada sem parar, e a pressão de ‘entregar o impossível’ vira quase parte da descrição do trabalho.
Nesse cenário, a saúde mental acaba ficando de lado. A empresa que realmente se importa com o bem-estar no trabalho de sua equipe precisa ir muito além dos discursos bonitos do Setembro Amarelo.
Quantas estão prontas para encarar o que de fato importa? Rever as políticas de gestão de pessoas, colocar metas realistas e garantir um volume de trabalho que não esgote os colaboradores são passos fundamentais.
Jogar a culpa do esgotamento na produtividade do colaborador, enquanto a estrutura da empresa o consome, é, no mínimo, uma falha ética e, claro, péssimo para os negócios da empresa. Cuidar da saúde do colaborador é investimento.
Um futuro com cuidado de verdade e prevenção genuína
O cuidado com a saúde mental dos colaboradores pede uma mudança cultural profunda. Significa colocar as pessoas no centro, não só no discurso, mas no dia a dia de cada organização.
A pergunta que as organizações precisam fazer é: vamos continuar mascarando a realidade com ações superficiais, ou estamos dispostos a investir num ambiente de trabalho saudável que realmente promova o bem-estar o tempo todo?
O Setembro Amarelo precisa ser um empurrão para essa reflexão. É a chance de as empresas mostrarem que cuidar da saúde mental é parte essencial da sua cultura organizacional e dos seus valores ESG, e não só uma tarefa anual.
A responsabilidade é de todos, e a ação real, constante e, acima de tudo, eficaz, será necessária para construir um futuro mais humano e saudável para todos, inclusive para os negócios.
*Daiana Moura, diretora de marketing e relacionamento no Grupo EBS, empresa que há 24 anos atua na realização de eventos de negócios, em especial dedicados ao segmento MICE.













