A sustentabilidade em eventos deixou de ocupar apenas o discurso institucional e passou a influenciar contratos, fornecedores, custos e decisões operacionais. Essa foi a principal mensagem do painel de abertura do Fórum de Eventos Sustentáveis, realizado no Auditório CIVI-CO, durante a programação da São Paulo Climate Week ’26.
Mediado por Roberta Yoshida, do Grupo Radar, o encontro reuniu representantes da Eccaplan, Profile/TEDx Amazônia, Coala e Agência Malta para discutir como práticas ESG estão sendo incorporadas à rotina de festivais, eventos corporativos e grandes produções.
“O futuro dos eventos é hoje, e quem está escrevendo somos todos nós, o público, o consumidor, as empresas e o mercado”, afirmou Roberta na abertura.
Sustentabilidade em eventos passa a ser critério de gestão
Ao apresentar o contexto econômico do setor, Fernando Beltrame, CEO da Eccaplan e idealizador do Fórum, destacou a dimensão da atividade na capital paulista. Segundo os dados apresentados durante o painel, os eventos movimentam mais de R$ 25 bilhões em São Paulo, com crescimento superior a 10% ao ano. No segmento de megaeventos, o avanço teria superado 22% entre 2024 e 2025.
O impacto econômico, porém, vem acompanhado de uma cadeia operacional extensa.
“O evento não acontece só no dia. Tem montagem, realização e desmontagem de eventos que levam quase um mês para montar”, afirmou Beltrame.
Segundo ele, é justamente nessa cadeia que se concentram alguns dos principais desafios relacionados à agenda ESG, entre eles mobilidade, alimentação, contratação de fornecedores, resíduos e diversidade.
Beltrame também destacou a evolução da ISO 20121, norma voltada à gestão sustentável de eventos. Criada em 2012 e atualizada em 2024, ela ganhou maior conexão com critérios ambientais, sociais e de governança.
“Sustentabilidade, carbono e resíduos deixaram de ser item opcional para virar item obrigatório dos eventos”, afirmou.
Métricas ganham peso nas decisões ESG
A medição de resultados foi um dos pontos centrais do debate. Para Beltrame, indicadores são indispensáveis para que ações ambientais e sociais deixem de ser iniciativas isoladas e passem a integrar a gestão.
“Se você não mede, não consegue melhorar, nem justificar internamente que reduziu custo, aumentou reciclagem ou incluiu mais pessoas.”
A discussão também avançou sobre a gestão de resíduos e o risco de soluções que geram boa percepção de comunicação, mas pouco impacto concreto.
“A melhor embalagem é a que nem foi gerada. Não adianta dizer que mandou zero para o aterro tendo queimado tudo, aí você não reciclou, não gerou emprego, não movimentou a cadeia”, disse.
Na avaliação do executivo, a evolução da sustentabilidade em eventos depende ainda do envolvimento dos fornecedores, ampliando o olhar para além das emissões diretamente controladas pelas empresas.
“Sustentabilidade é um alvo móvel: quando você acerta, surgem novas exigências.”
Design pode facilitar escolhas sustentáveis
Mariana Camardelli, diretora do TEDx Amazônia e sócia da Profile, levou o debate para o desenvolvimento da experiência dos participantes. Sua proposta é que produtores de eventos também assumam o papel de designers, considerando sustentabilidade e acessibilidade desde o início do projeto.
Entre os exemplos apresentados está a sinalização de resíduos.
“Uma lixeira que grita ‘orgânico’ é mais fácil de usar do que uma lixeirinha prateada que não diz nada”, exemplificou.
A lógica, segundo ela, é reduzir o esforço necessário para que o público faça escolhas mais sustentáveis.
“Quem anda com garrafinha bebe mais água. Quem desenha isso somos nós.”
Nos eventos realizados pelo grupo desde 2023, os tradicionais cordões de crachá foram substituídos por peças produzidas com sementes, como as de açaí. Os itens são transformados em colares e também contribuem para a geração de renda de artesãs.
Ao final do evento, a etiqueta do crachá pode ser devolvida para reciclagem, enquanto o participante leva o colar.
“Só percebemos o design quando ele falha. Quanto mais desenhamos com intencionalidade, menos as pessoas precisam escolher entre o que é sustentável e o que é fácil”, afirmou Mariana.
Patrocinadores ajudam a financiar novas práticas
O papel das marcas também ganhou destaque no painel.
Beatriz Estevan, coordenadora de produção da Coala, relatou que o custo foi, durante anos, uma das principais barreiras para ampliar iniciativas ambientais no festival.
Em 2023, diante das dificuldades financeiras daquele período, a produção chegou a considerar a redução do investimento em gestão de resíduos. A alternativa foi buscar patrocinadores interessados em associar suas marcas às iniciativas de sustentabilidade.
A parceria com uma empresa de bebidas passou a financiar a operação de resíduos, iniciativa atualmente mantida com o grupo Heineken.
“Quando isso virou uma exigência vinda da marca, mudou completamente o nosso cenário. Obrigada, patrocinadores”, afirmou.
O caso evidencia como critérios ESG também começam a interferir nas relações comerciais do mercado de eventos.
Eficiência operacional reduz consumo de água
Entre as mudanças implementadas pelo Coala está a substituição do fornecedor de banheiros.
Segundo Beatriz, o modelo anterior utilizava aproximadamente três litros de água por descarga. A nova estrutura modular passou a consumir cerca de 300 mililitros.
Em grandes festivais, nos quais o abastecimento envolve caixas com milhares de litros de água, a redução representa impacto relevante sobre o consumo total da operação.
Outro avanço ocorreu na área de governança.
O festival adotou um protocolo de combate ao assédio e passou a exigir que fornecedores e colaboradores participem da integração relacionada às regras do programa. A mudança ocorreu após a organização perceber que solicitar apenas certificados não garantia adesão efetiva.
“Precisamos do apoio das marcas para viabilizar as ações; e não basta fazer, é preciso registrar, entender e melhorar a cada edição”, afirmou.
Durante o Fórum, Beatriz informou ainda que o Coala trabalha para conquistar a certificação ISO 20121 em 2026.
Sustentabilidade no B2B enfrenta desafios próprios
A incorporação de critérios ESG também apresenta particularidades no mercado corporativo.
Felipe Malta, fundador da Agência Malta e conselheiro da AMPRO, destacou que a sustentabilidade em megaeventos B2B enfrenta condições diferentes das encontradas em festivais voltados ao consumidor final.
Enquanto grandes eventos de entretenimento conseguem transformar iniciativas ambientais em mensagens de forte alcance para o público e patrocinadores, eventos empresariais nem sempre possuem o mesmo poder de amplificação.
Nesse contexto, segundo Malta, a implementação da agenda depende de um trabalho permanente das equipes responsáveis pela sustentabilidade nas agências e empresas.
ESG passa a envolver toda a cadeia de eventos
O principal consenso do painel foi que a sustentabilidade não pode mais ser tratada como uma ação complementar.
Organizadores, agências, patrocinadores, espaços e fornecedores formam um ecossistema interdependente. Por isso, iniciativas ambientais, sociais e de governança tendem a ganhar maior eficiência quando são incorporadas aos processos de contratação, planejamento e avaliação de resultados.
Além disso, aumenta a pressão para que alegações ambientais sejam sustentadas por evidências e indicadores.
Ao encerrar a mediação, Roberta Yoshida destacou que a própria comunicação das empresas terá de acompanhar essa transformação.
“Na Europa, já se caminha para que, para dizer que é verde, sustentável ou eco, você tenha que provar.”
A discussão mostra uma mudança relevante para o mercado MICE: a sustentabilidade em eventos avança de uma agenda reputacional para um componente de gestão, eficiência operacional e relacionamento comercial.
O movimento também altera a lógica de investimentos. À medida que marcas passam a financiar ou exigir determinadas práticas, fornecedores precisam se adaptar, produtores precisam medir resultados e organizadores passam a incorporar critérios ESG desde a concepção dos projetos.
O futuro mencionado na abertura do painel, portanto, começa a aparecer nas planilhas, nos contratos e nas decisões tomadas antes mesmo de o primeiro participante chegar ao evento.
O Fórum de Eventos Sustentáveis foi coorganizado por Eccaplan e CIVI-CO e integrou a terceira edição da São Paulo Climate Week. Segundo informações apresentadas no evento, a edição de 2026 reuniu cerca de 300 atividades paralelas gratuitas distribuídas por aproximadamente 30 hubs na cidade.
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