POR MEIRE MEDEIROS
No mundo corporativo, costumamos celebrar a inovação como se ela fosse o oposto da tradição. Corremos atrás do novo, do inédito, do que promete disrupção — e esquecemos que há outro tipo de inovação, mais silenciosa e muito mais poderosa: aquela que o tempo valida. A verdadeira inovação é a que permanece.
Empreender, especialmente no Brasil, é um ato de fé. É resistir em meio à instabilidade, acreditar quando o mercado dúvida e seguir em frente quando os ventos mudam de direção.
Segundo o Sebrae, quase 60% das empresas brasileiras fecham antes de completar cinco anos. A sobrevivência, nesse contexto, virou um exercício diário de resiliência — e também de propósito.
Ao longo de mais de três décadas à frente do Grupo MM, uma empresa que nasceu em um mercado dominado por homens e hoje se consolida como uma das maiores do setor de eventos corporativos, aprendi que liderar com sensibilidade não é fragilidade: é estratégia.
A lógica da velocidade pode até gerar resultados no curto prazo, mas é o olhar atento às pessoas, à cultura e ao propósito que garante continuidade.
E talvez esse seja um dos maiores legados da liderança feminina. Enquanto boa parte do mercado busca crescimento imediato, nós aprendemos a construir em ciclos.
Sabemos que resultados sustentáveis não se impõem — se cultivam. É uma relação natural com o tempo: a de quem entende que crescer exige paciência, escuta e coerência.
Pesquisas confirmam o que a prática já mostra. De acordo com a McKinsey, empresas com mais mulheres em cargos de comando têm 25% mais chances de apresentar desempenho financeiro acima da média.
Isso porque a diversidade traz novas perspectivas, empatia e capacidade de adaptação — elementos essenciais para qualquer empresa que queira atravessar décadas. Mas longevidade empresarial depende menos de fórmulas e mais de vínculos.
É sobre ter equipes que acreditam, parceiros que confiam e clientes que enxergam propósito no que você faz.
Negócios de longo prazo não se sustentam apenas em contratos, mas em relações de verdade. E esse é o diferencial que a liderança feminina trouxe ao mundo corporativo: a capacidade de equilibrar emoção e estratégia sem perder performance.
Durante a pandemia, quando o setor de eventos praticamente parou, percebi o quanto essa visão fez diferença. Muitas empresas fecharam, outras se reinventaram. No nosso caso, o que manteve a MM de pé não foi a estrutura nem o capital, mas a cultura.
A confiança entre as pessoas, a comunicação transparente e a disposição para transformar crise em aprendizado nos permitiram atravessar o período mais desafiador da história do setor.
A cultura é o maior patrimônio de uma empresa longeva — e, curiosamente, é o ativo mais invisível em qualquer balanço financeiro.
Liderar com o tempo é entender que cada decisão tem um eco. Que aquilo que se constrói hoje não é só para o presente, mas para quem virá depois.
É por isso que admiro tanto as mulheres que criam negócios e os mantêm firmes por décadas: elas não estão preocupadas apenas com a próxima meta, mas com o legado que deixarão depois dela.
A inovação rápida pode colocar uma empresa nos holofotes. A consistência, porém, é o que garante que ela não saia de cena quando as luzes se apagam.
O tempo não destrói o que é autêntico — ele apenas revela quem realmente é. Longevidade, no fim das contas, é uma forma de amor pelo que se faz.
É acordar todos os dias disposta a melhorar, mesmo quando ninguém está olhando. É liderança que respeita o tempo — e o tempo, em retribuição, respeita de volta.
*Meire Medeiros é fundadora e CEO do Grupo MM Full Experience
