POR TATIANE FIGUEIREDO
Ao longo da minha trajetória como Professora universitária, desenvolvi um ritual no primeiro dia de aula que diz muito sobre a essência da profissão que escolhemos. Antes de falar sobre metodologia, planejamento ou estratégia, eu faço uma pergunta simples para os meus alunos:
“O que trouxe você até aqui? Por que decidiu fazer um curso de eventos corporativos?”
As respostas mudam em nuances, mas quase sempre se concentram em dois grandes grupos. De um lado, estão profissionais vindos de outras áreas, movidos pelo desejo de migrar para o universo dos eventos.
Chegam com o coração aberto, muita curiosidade e uma vontade admirável de aprender, absorver repertório e construir uma nova trajetória.
Do outro, encontro profissionais experientes, que já vivem a rotina do setor e buscam atualização, refinamento e uma leitura mais contemporânea do mercado.
Querem entender o que a indústria de eventos está demandando, quais competências ganharam relevância e para onde o setor está evoluindo. São perfis diferentes, em momentos distintos de carreira, mas com uma inquietação em comum: se desenvolver na área.
E é justamente aí que está o meu propósito em sala de aula.
Independentemente do ponto de partida, procuro mostrar que um dos maiores desafios para quem atua em eventos é deixar de ser apenas um executor eficiente para se tornar um gestor mais estratégico.
Um profissional capaz de olhar o contexto “de cima”, compreender objetivos de negócio, antecipar cenários, conectar decisões e, só então, mergulhar na operação.
Mas antes mesmo dessa evolução estratégica, existe uma base anterior, uma competência que antecede todas as outras. Para trabalhar com eventos, começa, antes de tudo, por gostar de gente. Gostar de resolver problemas. Saber ouvir.
Essa afirmação pode soar simples — quase óbvia — mas, na prática, ela carrega uma profundidade enorme. Porque, embora o mercado frequentemente associe eventos a cronogramas, fornecedores, orçamento, produção e logística, existe uma dimensão essencial que por vezes é subestimada: eventos são, fundamentalmente, uma disciplina de relações humanas.
No ambiente dos eventos corporativos, “gostar de gente” está longe de significar apenas ser sociável ou ter facilidade de relacionamento. Envolve leitura de contexto, escuta ativa, empatia, negociação e a capacidade de construir confiança entre múltiplos stakeholders.
O gestor de eventos lida o tempo todo com pessoas — e principalmente com as expectativas dessas pessoas.
Clientes querem resultados.
Executivos querem reputação e posicionamento.
Participantes querem experiências memoráveis.
Fornecedores querem alinhamento.
Times internos precisam de direção.
No centro dessa engrenagem está o que costumo nomear em minhas aulas de “Maestro”: o Gestor de Eventos.
É ele quem conecta interesses diversos, traduz necessidades em soluções e, muitas vezes, administra tensões antes mesmo que elas se tornem visíveis.
Acredito que quem gosta de gente costuma gostar de resolver problemas.
E essa conexão é poderosa. Quem genuinamente gosta de gente costuma desenvolver uma disposição natural para servir, apoiar e encontrar caminhos.
E eventos são, em essência, resolução contínua de problemas — e é nesse ponto que a maturidade do gestor aparece.
Porque, na maioria dos casos, excelência não significa ausência de problemas, e sim capacidade de resposta.
Como afirmei no início do texto, gostar de gente é uma competência que antecede todas as outras, mas atualmente o mercado exige uma evolução quase obrigatória: um gestor menos operacional e mais estrategista.
Aqui está um ponto decisivo para quem deseja crescer na carreira.
Preciso ressaltar que o fato de ser menos operacional não significa abandonar a operação — e esse ponto merece atenção. Gestores de alta performance transitam entre os dois mundos: dominam a execução, mas lideram pela estratégia.
Depois de anos atuando em eventos corporativos em diferentes países e contextos, uma convicção se fortalece toda vez que falo sobre esse tema: as tecnologias mudam, os formatos evoluem, tendências passam, mas a essência permanece.
Eventos continuam sendo sobre pessoas.
E talvez os profissionais mais valiosos do mercado sejam justamente aqueles que conseguem unir três competências raras: sensibilidade humana, capacidade de resolver problemas e visão estratégica.
Quando essas três dimensões se juntam, o gestor de eventos deixa de apenas entregar eventos e passa a liderar experiências que movem negócios, fortalecem marcas e criam conexões duradouras.
E esse é, para mim, o papel mais nobre da nossa profissão.
*Tatiane Figueiredo é professora e Presidente Eleita da MPI Brazil













