A festa ficou cara!

POR MARCUS QUINTANILHA FILHO

O Brasil descobriu, nos anos 2000, que música também podia ser uma grande indústria de experiências. Shows, festivais, camarotes e eventos passaram a fazer parte do consumo de uma classe média que, com mais renda e crédito, incorporou o entretenimento ao orçamento.

O Rock in Rio de 2001 reuniu 1,2 milhão de pessoas; duas décadas depois, o país já realizava centenas de festivais por ano. Em 2024, foram 364, 20% mais do que no ano anterior.

O problema é que a festa ficou cara.

O Lollapalooza talvez seja um dos melhores exemplos. Em 2012, o ingresso de um dia custava R$ 300. Corrigido pela inflação, isso equivaleria a aproximadamente R$ 747 hoje. Em 2026, o mesmo ingresso chegou a R$ 1.104. O preço real aumentou quase 50%.

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E isso é apenas a entrada: transporte, estacionamento, alimentação, bebidas e, muitas vezes, hospedagem transformam um ingresso de R$ 1.100 em uma experiência que pode facilmente custar duas ou três vezes isso.

Segundo pesquisa da Serasa, 44% dos brasileiros apontam o preço dos ingressos como a principal barreira para frequentar shows e festivais.

Mais revelador: 24% já se endividaram para participar de um evento e 23% dizem ter gasto mais do que podiam com ingressos ou produtos relacionados aos artistas. Isso diz muito mais sobre a economia brasileira do que sobre o consumo de eventos em geral.

O consumidor não deixou de querer se divertir. Ele passou a ter que escolher. Um festival substitui três shows.

O ingresso mais barato substitui a área VIP. A viagem é adiada para pagar o evento ou simplesmente o show deixa de caber no orçamento.

É o mesmo mecanismo que vemos em outros mercados. O carro ficou caro e o consumidor migrou para o usado. O imóvel ficou caro e ele procurou um menor. O restaurante ficou caro e ele reduziu a frequência.

A viagem ficou cara e passou a acontecer uma vez por ano, em vez de duas. O entretenimento apenas tornou essa mudança mais visível porque ninguém precisa ir a um festival para sobreviver. 

Quando até o lazer começa a exigir planejamento financeiro, alguma coisa mudou na economia, mesmo que ninguém esteja querendo falar sobre isso.

E aqui está a contradição: a indústria de entretenimento continua crescendo, os grandes eventos continuam lotados e os artistas continuam cobrando valores extraordinários.

O mercado encontrou um consumidor disposto a pagar muito — mas isso não significa que a maioria consiga pagar muitas vezes. A consequência é uma economia cada vez mais dividida entre quem consegue manter o padrão de consumo e quem precisa escolher quais experiências ainda cabem no orçamento.

Artistas e eventos já consolidados permanecem, enquanto os novos projetos acabam com uma linha vermelha de prejuízo no final da planilha. Ninguém deseja arriscar.

Talvez seja esse o melhor retrato da micro recessão que me preocupa: não é que o brasileiro tenha parado de trabalhar ou deixado de desejar.

Ele continua trabalhando, ganhando e querendo consumir. O que mudou é a quantidade de coisas que consegue fazer com o dinheiro que sobra.

A festa continua. Os shows continuam lotados. Os festivais continuam crescendo. Mas a pergunta mudou: quem ainda consegue pagar para entrar?

Porque, quando até a festa fica cara demais, talvez o problema já não esteja apenas na renda. Talvez o Brasil simplesmente tenha ficado caro demais.

*Marcus Quintanilha Filho é economista e empresário

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