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Repertório também é talento

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POR PATRICIA SEGATTO

Tenho tentado voltar para uma coisa que sempre foi muito minha: consumir cultura. Teatro, cinema, música, livros, arte… Eu sempre fui muito próxima desse universo.

Meu marido é ator e, por causa dele, tenho acompanhado mais de perto esse ambiente de novo. Ele está fazendo uma reciclagem na Escola Macunaíma, e isso acabou me levando mais vezes para a plateia.

E que bom.

Quando a rotina fica muito acelerada, meu jeito de pensar também muda. Fica tudo mais rápido, mais “pá, pá, pá”. Faz parte da vida executiva, claro, mas percebo que preciso alimentar outro tipo de atenção.

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Além de uma pausa, cultura é construção de repertório. Nos últimos meses, algumas experiências me lembraram disso:

Comecei a ler “Como ser um bom ancestral”, do Roman Krznaric, e estou adorando. Ele fala sobre a nossa relação com o tempo, sobre a dificuldade humana de enxergar consequências para além dos próximos 20 ou 30 anos, sobre futuro, meio ambiente e legado.

No dia a dia, é fácil olhar para o que precisa ser resolvido agora: a meta do mês, a reunião da semana ou o projeto que precisa sair.

Também assisti a “O Mercador de Veneza”, no Tucarena, com Dan Stulbach. Foi incrível. Uma história clássica de Shakespeare, mas em uma montagem que trazia para hoje discussões sobre preconceito, poder, justiça e relações humanas.

É impressionante como Shakespeare continua atual.

O tempo muda, os formatos mudam, mas alguns conflitos permanecem: a necessidade de pertencimento, a disputa por reconhecimento e a forma como uma sociedade decide quem será ouvido e quem será colocado à margem.

O teatro tem uma força muito particular para mostrar isso. Você está ali, no mesmo espaço, vendo pessoas reais contarem histórias com o corpo e a voz. Não dá para acelerar ou abrir outra aba.

No cinema, vi “O Filho de Mil Homens”, inspirado no livro do Valter Hugo Mãe, com Rodrigo Santoro. Achei lindo demais. Sutil, singelo, delicado. Um filme que não precisa gritar para ficar com você depois.

Também fui ao concerto do Andrea Bocelli, que me emocionou do começo ao fim. Chorei muito. Eu brinco que vivo no pop, no barulho, no corre, mas adoraria viver mais perto do canto lírico.

Existem muitas formas de contar uma história.

A literatura organiza pensamento.

O teatro coloca a presença no centro.

O cinema ensina o valor do detalhe.

A música atravessa explicações e chega direto na emoção.

E o marketing, quando é bem feito, organiza essas camadas com intenção.

Antes de qualquer métrica, existe uma pessoa tentando decidir se aquilo merece atenção. E a gente lembra do que sente.

Por isso, repertório cultural também é ferramenta de trabalho para quem atua com comunicação, marketing, eventos e negócios.

Ele ajuda a refinar o olhar, reconhecer nuances, perceber boas histórias e fugir das soluções automáticas.

A arte treina nossa sensibilidade para entender as pessoas. E, no fim, é isso que sustenta uma boa estratégia.

*Patricia Segatto é Past President da MPI Brazil e Executive Director da MCI Brasil.

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